Nas pesquisas que tenho feito sobre matemática, alfabetização, letramento, educação e muito mais, encontrei esta entrevista, que acredito vale a pena ser lida e consequentemente repensar o ensino em geral, principalmente por parte dos alunos ,mas cabendo também aos professores e às instituições de ensino uma grande parcela nesta reflexão. Tem que haver mudança, sim, mas nada que seja tão grandioso e impossível. Basta haver bom senso e conscientização de todos os envolvidos no processo.
Sylvia Maria
Entrevista Sobre o
Ensino de Matemática
A entrevista que se segue foi extraída do livro Matemática e Ensino de
Elon Lages Lima da coleção Professor de Matemática.
Por favor você que é estudante leia até o fim e pense no que o professor
Elon tem a dizer sobre isto pode ser vital para seu aprendizado.
Assim disse o Professor Elon:
Os jornais publicaram recentemente noticias de um estudo feito pelo MEC,
sendo o qual o ensino de Matemática nas escolas brasileiras foi o que pior
desempenho teve entre todas as matérias do currículo normal nos últimos anos.
Por conta disso, fui entrevistado pelo Jornal do Brasil (duas vezes) e
pela TV Educativa do Rio de Janeiro. No que se segue, tentarei resumir
algumas coisas que disse naquelas ocasiões, ou penso que disse, ou que deveria
ter dito. Pouco importa se o registro não é exato. Estas são minhas opiniões,
hoje como ontem.
P.
são as perguntas que me fizeram e R são minhas respostas.
P. por que o ensino da Matemática vai
tão mal?
R. todo ensino vai mal.
P. mas o da Matemática vai pior
R.entre muitas coisas más, uma sempre é
pior do que as outras
P. há algum motivo para a Matemática ir
pior?
R. há vários.
P. um dos motivos seria o fato de a
Matemática ser mais difícil?
R. não. Qualquer criança cuja capacidade
mental lhe permita aprender a ler e escrever é também capaz de aprender a
Matemática que se ensina no primário( 1ª a 4ª série ). Mais geralmente, todas
as matérias que se ensinam no primeiro grau( até a 8ª série ) apresentam
essencialmente o mesmo grau de dificuldade e nenhuma delas exige pendores,
habilidades ou talentos especiais para aprendê-la.
P. então todo jovem normal é em
princípio, capaz de aprender toda a Matemática que deve ser ensinada até a 8ª
série?
R. absolutamente, sem. Sem dúvida.
P. e isso de fato acontece?
R. no Brasil, não . Noutros países, como
por exemplo o Japão, sim
P. isso quer dizer que os jovens desses
países são mais inteligentes do que os nossos?
R. de maneira nenhuma. Nem mais nem menos
. Há, por exemplo, brasileiros de descendência japonesa em número suficiente
para vermos que não é assim.
P. você disse que são vários o motivos
para o baixo rendimento no ensino da Matemática. Quais são eles?
R. antes disso, eu havia dito que todo o
ensino vai mal. Por isso acho melhor começar por aí. Os países ricos, aqueles
onde o povo tem uma vida mais confortável, são precisamente aqueles em que as
pessoas têm acesso a uma educação de melhor qualidade. Isso significa escolas
bem equipadas e professores competentes. Esse quadro resulta da conscientização,
arraigada na cultura nacional, de que a educação, além de ser a única porta
para o bem-estar, é um direito do cidadão e um dever do Estado.
P. como poderíamos esperar professores
competentes no Brasil, como salários tão baixo?
R. os salários dos professores
brasileiros que atuam no primeiro e segundo graus são simplesmente vergonhosos.
Humilhante. Por isso as escolas têm tanta dificuldade para recrutar professores
capazes e os cursos de licenciatura estão vazios. Entretanto, os baixos
salários não são, em si, a causa primordial do problema. São antes uma
conseqüência de não ter o nosso povo a noção exata do valor da educação e daí
seus representantes eleitos padecerem do mesmo mal. Se houvessem entre nós a
conscientização a que me referi acima, refletiria nos seus salários, como
ocorre nos países civilizados.
P. podemos agora focalizar a Matemática?
R. sim. Ao contrario das demais matérias
que se estudam na escola, que se referem a objetos e situações concretas, a
Matemática trata de noções e verdades de natureza abstrata. Aliás, essa é uma
das razões da sua força e sua importância. A afirmação 2 x 5 = 10 tanto se
aplica aos dedos de duas mãos quanto aos jogadores que disputam um jogo de
basquete. A generalidade com que valem as proposições matemáticas exige
precisão, proíbe ambigüidades e por isso requer mais concentração e
cuidado por parte do estudante. Por outro lado, o exercício dessas virtudes
durante os anos de escola ajuda a formar hábitos que serão úteis no futuro. A perseverança,
a dedicação e a ordem no trabalho são qualidades indispensáveis para o estudo
da Matemática. Note-se que não se trata de talentos e que não se nasce dotado
delas.
P. então, afinal de contas, a Matemática
é mais difícil.?
R. se o fato de exigir empenho, atenção e
ordem significasse ser mais difícil , a resposta (relutante) seria sim. As
idéias e regras matemáticas no nível que estamos considerando são, porém, todas
extremamente simples e claras, bem mais simples e claras, por exemplo, do
que as regras da crase ou mesmo da lei do impedimento do futebol. Por isso,
continuo afirmando que toda pessoa de inteligência média, talentos ou pendores
especiais, pode aprender toda a Matemática do ginásio, desde que esteja
disposta a trabalhar e tenha uma orientação adequada. Aqui já vão dois dos
motivos que você me pediu para o mau resultado no ensino da Matemática: pouca
dedicação aos estudos por parte dos alunos e da sociedade que os cerca, a
começar pela própria família e despreparo dos seus professores nas escolas que
freqüenta.
P. ainda há outros?
R não se esqueça do motivo primordial,
que aludi acima: a falta de um reconhecimento nacional de que sem educação não
há progresso e o conseqüente descaso oficial pelo sistema escolar. Mas há
outros, sim. O conhecimento matemático é pro natureza, encadeado e cumulativo.
Um aluno pode, por exemplo, saber praticamente tudo sobre a proclamação da
República brasileira e ignorar completamente as capitanias hereditárias. Mas
não será capaz de estudar Trigonometria se não conheer os fundamentos da
Álgebra, nem entenderá essa última se não souber as operações aritméticas, etc.
Esse aspecto de dependência acumulativa dos assuntos matemáticos leva a uma
seqüência necessária, que torna difícil pegar o bonde andando e muitas vezes
provoca uma síndrome conhecida como “ansiedadematemática “
P. o que é isso?
R. é o que algumas pessoas têm da
Matemática. No passado, ele era repartido com medo do latim, mas este foi
abolido, juntamente com quase tudo que requeria trabalho no currículo escolar.
Restou a Matemática, mas as pessoas costumam disfarçar sua ansiedade matemática
com um aparente e curioso orgulho que as leva a vangloriarem-se de que são
péssimas nessa matéria, que sempre a detestaram, etc. É engraçado que muitas
dessas pessoas escrevem mal mas não admitem isso. Ninguém se orgulha de dizer
que escreve chuva com “x”, que não emprega corretamente a crase ou que diz
“aluga-se bicicleta”
P. qual é a origem da ansiedade
matemática?
R. são várias. Uma das mais freqüentes é
a tentativa de aprender um assunto sem estar preparado para ele. Outra é passar
os anos escolares nas mãos de professores incapazes, que muitas vezes usam a
arrogância, a ironia e a humilhação como disfarces para sua ignorância e com
isso provocam aversão à matéria que deviam ensinar. Há também a mera preguiça
de pensar.
P. aos poucos você vai revelando os
motivos para o pouco êxito no ensino da Matemática: em primeiro lugar, o
sentimento de que a educação é o caminho para o bem-estar não é
suficientemente forte no espírito do nosso povo. Esse é o motivo fundamental,
no seu entendimento. Os demais são: 1º) A Matemática, por ser exata, requer
atenção, cuidado e ordem. 2º) O conhecimento matemático é cumulativo; cada
passo precisa dos anteriores. 3º) Raramente a Matemática é bem ensinada. Você
tem alguma proposta para melhorar esse estado de coisas?
R. quanto ao motivo primordial, ele tem
muito a ver com o amor-próprio nacional. Em 1806, depois da batalha de Jena,
onde o exército prussiano teve seu orgulho esmagado por Napoleão, os alemães
concluíram que desenvolvimento( e, em última análise, força) depende
substancialmente de educação. E processaram um reforma radical. O sistema
educacional tornou-se central na sociedade. As universidades foram modificadas
e os professores secundários ganharam alto prestigio social. O progresso do
país, a partir daí, foi notável. Exemplos mais recentes de ressurgimento das
cinzas com base na educação podem ser vistos no Japão e na Coréia. No nosso
caso, que se pode fazer? Talvez gritarmos bem alto: “brasileiros criem vergonha
na cara”. Quanto as peculiaridades da Matemática, ela é importante proque é
exata, geral e se ocupa das noções mais básicas da vida humana: número e
espaço. Deixemo-la assim e amemo-la por isso. Finalmente, quanto ao ensino, não
há mistério nem milagre. O bom professor é aquele que vibra com a matéria que
ensina, conhece muito bem o assunto e tem um desejo autentico de transmitir
esse conhecimento, portantose interessa pelas dificuldades de seus alunos e
procura colocar-se no lugar deles, entender seus problemas e ajudar a
resolvê-los. Não há fórmulas mágicas para ensinar Matemática. Não há caminhos
reais, como Euclides já dizia a Ptolomeu. A única saída é o esforço honesto e o
trabalho de persistente. Não só para aprender Matemática, mas para tudo na
vida.
P. devo entender que você não tem
proposta a fazer?
R. pelo contrário, tenho algumas. Diante
do exposto, a única ação viável deve ser dirigida ao professor, visando
melhorar a qualidade do seu trabalho o problema é bem menor nas escolas
particulares, onde é possível manter os bons professores melhorando seus
salários e se livrar dos piores demitindo-os.( é possível, mas nem sempre isso
é feito) Na escola pública, que abriga a vasta maioria dos alunos ( e que
deveria abrigar todos) a situação é mais complicada. Aumentar simplesmente os
salários não resolve nada porque a qualidade dos professores que nela trabalham
não vai melhorar por isso. Se o problema do professorado consiste em mau
preparo e baixos salários, as duas coisas devem ser atacadas simultaneamente.
Acho que deveria haver todo ano um exame nacional para habilitação de
professores, feito em três níveis: 1ª a 4ª série, 5ª a 8ª série e ensino médio.
Acho que deveria haver uma tabela salarial especial para professores aprovados
nesse exame. Acho que o ensino até a 8ª série deveria ser obrigatório, o mesmo
currículo para todos os estados do país. Acho que o poder público deveria
instituir programas de capacitação, a fim de preparar os professores para os
exames de habilitação. Acho que o ensino médio deve continuar sendo bifurcado,
não em clássico ou cientifico, como era antigamente, mas em acadêmico e
profissional, devendo este último preparar diretamente o jovem para o mercado
de trabalho. Estas são, em resumo, minhas propostas.
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